Brasil & MundoClimaNotícias

Chuva histórica transforma Deserto do Atacama em cenário de desastre e deixa mortos no Norte do Chile

O Norte do Chile enfrenta um dos eventos meteorológicos mais extremos de sua história recente. Em apenas quatro dias, áreas do Deserto do Atacama registraram volumes de chuva equivalentes ao que normalmente é observado ao longo de aproximadamente quatro anos, provocando enchentes, destruição de infraestrutura, isolamento de comunidades e um elevado número de vítimas.

Área inundada na cidade costeira de Arauco, na região de Biobío, no Chile, após fortes tempestades atingirem a região. Três pessoas morreram e 76 foram afetadas em meio a uma tempestade com chuvas intensas, ressaca e ventos que atinge 10 das 16 regiões do país, informou o governo.Foto: GUILLERMO SALGADO / AFP

As regiões de Atacama e Coquimbo foram as mais atingidas. Em alguns municípios, os acumulados de chuva chegaram a cerca de 250 milímetros em menos de uma semana, um volume considerado absolutamente excepcional para uma das áreas mais áridas do planeta.

A cidade de Alto del Carmen ficou isolada após enxurradas destruírem acessos e bloquearem estradas. Rios temporários transbordaram, ocorreram deslizamentos de terra e diversas pontes foram levadas pela força da água.

Segundo o meteorologista chileno Jaime Leyton, o fenômeno foge completamente dos padrões climáticos da região. “Choveu em quatro dias mais do que em quatro anos”, resumiu o especialista ao destacar a magnitude do evento.

Por que chove tão pouco no Atacama?

O Deserto do Atacama, localizado entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, é considerado a região não polar mais seca do mundo. Em algumas áreas, a precipitação média anual é inferior a um milímetro, enquanto determinados pontos permanecem décadas — e até séculos — sem registrar chuvas significativas.

Essa extrema aridez é resultado da combinação de três fatores principais:

  • A Corrente de Humboldt, que transporta águas frias ao longo da costa chilena e dificulta a formação de nuvens carregadas;
  • A Cordilheira dos Andes, que impede a chegada da umidade proveniente da Amazônia, formando um efeito conhecido como “sombra de chuva”;
  • A atuação constante da alta pressão subtropical do Pacífico Sul, que favorece o ar descendente e reduz a formação de nuvens de grande desenvolvimento.

Quando essa configuração atmosférica é rompida por sistemas meteorológicos excepcionais, o resultado costuma ser devastador. Como o solo permanece extremamente seco e compactado durante anos, ele praticamente não absorve grandes volumes de água, favorecendo enxurradas violentas e cheias repentinas.

Estado de catástrofe

Diante da gravidade da situação, o governo chileno decretou Estado de Exceção Constitucional de Catástrofe para parte das regiões de Atacama e Coquimbo. A medida permite acelerar a atuação das Forças Armadas, ampliar as operações de resgate e liberar recursos emergenciais para atender as comunidades afetadas.

O balanço mais recente divulgado pelo Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (Senapred) aponta:

  • 13 pessoas morreram;
  • 4 permanecem desaparecidas;
  • Mais de 3.400 pessoas foram diretamente afetadas;
  • Cerca de 63 mil moradores continuam isolados devido aos bloqueios em rodovias e pontes destruídas.

Além disso, aproximadamente 100 residências foram completamente destruídas, cerca de 3.500 sofreram danos graves e outras 20 mil apresentaram avarias de menor intensidade.

Serviços essenciais e prejuízos

O desastre também comprometeu serviços essenciais. Centenas de milhares de consumidores ficaram sem abastecimento de água potável em algumas regiões, enquanto milhares de imóveis enfrentaram interrupções no fornecimento de energia elétrica durante os dias mais críticos da emergência.

Os prejuízos econômicos já ultrapassam US$ 400 milhões, afetando principalmente os setores da agricultura, comércio e mineração. Diversas operações mineradoras precisaram interromper suas atividades devido às enchentes e aos danos causados na infraestrutura.

Autoridades chilenas compararam o cenário de destruição aos impactos provocados por grandes terremotos, fenômeno ao qual o país infelizmente já está acostumado.

Risco continua elevado

Embora as chuvas tenham diminuído nas áreas mais atingidas, o risco ainda não passou. Rios seguem com níveis elevados, encostas permanecem instáveis e diversas estradas continuam interditadas, dificultando o acesso das equipes de resgate e reconstrução.

Especialistas destacam que eventos de chuva intensa já ocorreram anteriormente no Norte do Chile, porém ressaltam que a magnitude deste episódio está entre as maiores já registradas na história recente da região, evidenciando o caráter excepcional do fenômeno meteorológico.